O efeito manifestação. O caso do Tarrafal & a destruicão da sua vantagem competitiva e comparativa

O Tarrafal é um património histórico e poderia ser a melhor zona turística de Cabo-verde, se quisessem. Pela sua icónica praia, pela sua história e acima de tudo porque a Morabeza ainda existe neste magnífico Município. Mas um Município que durante 28 anos foi gerido por sucessivos eleitos do MpD apenas num modelo de vendas/negócios de terrenos, em que o atual edil só despertou duas vezes durante o seu mandato em nome do Tarrafal: quando destruiu o seu automóvel oficial e quando anunciou-se as manifestações; pedindo socorro ao Governo, não podia estar diferente.

O que nem se deve estranhar, uma vez que foi necessário que seja a Cidade da Praia a organizar um coloquio sobre Tarrafal, intitulado: “Município do Tarrafal no contexto da ilha e do país: sua contribuição e contributo dos seus quadros no desenvolvimento do concelho e do país”. Nem para organizar um colóquio serve a atual liderança Municipal.

Um grupo de Jovens cansados com a inércia que assola o Município do Tarrafal há 28 anos, decidiram sair à rua em protesto. Devido a esta manifestação, todo o elenco Governativo deslocou-se ao Tarrafal em visita. De seguida, apareceu o Vice-ministro e Ministro das Finanças, a suspender de urgência o seu périplo em formato de campanha eleitoral pelas ilhas, e aparecer no Tarrafal. Segundo o Ministro Olavo Correia, “o município do Tarrafal acaba de dar importante passo de viragem rumo a um futuro próximo promissor”, devido a obra Oásis Atlântico – Tarrafal Eco Resort.

É o cúmulo da demagogia, e a prova do que as eleições municipais em 2020, é mais importante que gerir as péssimas finanças do País. Percentualmente, o ministro consome mais dinheiro dos 600 mil contos (6 milhões de Euros) do Orçamento de Estado (OE) previstos para viagens, do que a transferência que o Município do Tarrafal recebe anualmente do Governo. Peçam ao Ministro que publique quanto gasta anualmente o seu departamento em viagens e estadias, em nome da propalada transparência – oculta, do Governo.

A verdade é que o Governo nem no seu último Orçamento de Estado (OE) contempla qualquer obra estruturante (ver as paginas 17 e 38 do OE 2019) para o Tarrafal. Portanto, o Tarrafal não conta nos planos do Governo. Não tendo quaisquer planos para o Tarrafal, vem o Governo apoiar-se em dois projetos turísticos para enganar os Munícipes: A Marina do Tarrafal e o Oásis Atlântico – Tarrafal Eco Resort.

Tarrafal hotel resort1

A primeira crítica é o facto de uma empresa privada decidir entrar em demagogia política em prol do Governo. Porquê o lançamento da primeira pedra “no dia” da Manifestação? O PAICV deveria mostrar a sua indignação ao Grupo Oásis Atlântico.

A segunda crítica é que a Marina do Tarrafal, não terá qualquer impacto significativo na vida da população do Tarrafal. E apesar da publicidade, não passa de mais um MEMORANDO DE ENTENDIMENTO. Desta vez, não com a Icelandair, mas sim, com “o mesmo empresário que desenvolveu a Marina de Mindelo, em São Vicente”(https://thereallutz.wordpress.com/). Mais um privado a imiscuir pública e diretamente na política interna/nacional? O PAICV deve mostrar a sua indignação em situações semelhantes.

SERÁ QUE O PROJECTO “Oásis Atlântico – Tarrafal Eco Resort” É REALMENTE ECO, E O QUE TARRAFAL PRECISA?

Tarrafal hotel resort2

Há uma frase que diz-se pertencer a Einstein. Numa tradução livre: “não se pode fazer a mesma coisa e esperar resultados diferentes”.

O modelo de turismo implementado em Cabo-verde já deu prova de que não serve ao País. Apesar da percentagem sobre o PIB que o Turismo tem em Cabo Verde, a maioria dos capitais saem para fora do Pais. Nós ficamos com migalhas, destruição dos nossos ativos naturais, bairros de latas, trabalhos precários, não aproveitamento da Morabeza (os turistas sequer interagem com os Cidadãos e comerciantes das ilhas, uma vez que estão confinados as paredes dos Hotéis), destruição de pequenos comércios hoteleiros nacionais etc.

No facebook os membros do Governo e seus correligionários andam todos extasiados de alegria (em particular o facebook do Secretário-geral do MpD Miguel Monteiro), por que acreditam que a apresentação desta obra teve o efeito de ludibriar a população do Tarrafal. Os 28 anos de estagnação do Tarrafal acabaram de desaparecer. Pensam eles!

E tendo em conta o que se vê no Sal, Boavista e brevemente no Maio, as imagens dos hotéis, retratam e valem mais para a classe política, do que a realidade à volta. O que importa é a maquilhagem! A maquilhagem pode melhorar a beleza mas pode também destruir a essência; via ilusão do padrão de beleza e de sucesso. Vamos analisar friamente esta obra:

1) O que torna Tarrafal num Património é a sua icónica Praia. Destruir a sua Praia em nome do turismo de 5 estrelas, é loucura e crime;

2) A obra deveria ser discutida com a população local, com os empresários turísticos no Tarrafal que dependem diretamente (99%) desta Praia e técnicos independentes;

3) Estão a violar claramente as Leis do País relativamente as construções na Orlas Marítimas. Estão a deslocar o modelo criminal e corrupto da Cidade da Praia para o Tarrafal;

4) Os verdes que vemos no projeto não existem;

5) Construir piscinas dentro da areia da praia principal do Tarrafal, quando o mesmo Hotel está situado a 2 metros da água do mar, é loucura e crime;

6) Construir piscinas dentro da areia da praia principal do Tarrafal significa evitar que os Turistas se misturem com os “outros”. É loucura, complexo e o acabar com o contacto com a Morabeza. O que deferência em ir ao Tarrafal e as outras ilhas turísticas, é que aí ainda se vive a morabeza e a cabo-verdianidade. Vão destruir a vantagem Competitiva e Comparativa do Tarrafal;

7) Construir apartamentos dentro da areia da praia principal do Tarrafal não tem nada de Eco, é loucura e crime;

8) Quando houver um boom de Cabo-verdeanos que saem da Praia, e outras localidades para passarem os fins de semanas com as famílias no Tarrafal, em que parte da areia irão ficar confinadas? Querem implementar o apartheid turístico no Tarrafal, tal como nas outras ilhas?

Todos queremos o desenvolvimento do nosso País e do Tarrafal em particular; o Município com mais potencial, e que menos desenvolveu-se nos últimos 28 anos. Mas isto não significa destruir tudo em nome do turismo e do falso desenvolvimento. Esteempreendimento no modelo que se pretende, será o fim da Praia do Tarrafal como Património, e a destruição do principal fator de diferenciação.

Não podemos deixar que seja os operadores turísticos e políticos complexados a desenharem o modelo de turismo para o País aos seus belos prazeres, e impunemente.

Que se construa este empreendimento, mas sem tocar na Praia do Tarrafal. Está na hora de começarmos a lutar para o nosso País: resgatando-a da mão de certos políticos.

PS1: Se o Edil do Tarrafal quer receber atenção, dinheiro e visitas constantes do Governo, faça como o Presidente de Calheta de São Miguel: Compra um Mercedes de 10 mil contos.

PS2: A primeira manifestação fez todos os membros do governo deslocarem-se de helicóptero ao Tarrafal, imaginem a segunda ou a terceira Se a população do Tarrafal quer mudanças e desenvolvimento: continue a manifestar-se, e prepare-se para defender o Tarrafal dos saques que se advinham, em nome do turismo e falso desenvolvimento.

Fonte: Santiagomagazine