A queda do gigante de pés de barro

“Este governo insensível, depois de receber um forte aviso nas eleições autárquicas, virou fadjadu. Agora, às vésperas das eleições anda a distribuir bicicletas para os peixeiros, paga as faturas de luz e água dos endividados e possivelmente antes do dia 18 distribuirá cheques para compras nos minimercados do país”

O dia 18 de abril será o fim do calvário dos cabo-verdianos que ao longo desses 5 anos tiveram de consentir uma infinidade de agruras. Se tal não acontecer, isto é, se o partido no poder vencer as eleições legislativas do próximo dia 18 de abril, será um caso raro no mundo e matéria de estudos para sociólogos e politólogos, já que este é um país com uma situação económica catastrófica, desemprego galopante, onde os jovens não têm nenhuma perspetiva de futuro e assaltos com armas brancas e de fogo é o pão nosso de cada dia.

Na verdade, Cabo Verde foi governado nesses últimos cinco anos por um governo simulador, com apetência para a rabidância, inflacionista e muito insensível às questões sociais e criminais.

Durante a campanha para as legislativas de 2016, o atual primeiro-ministro criticou severamente o ex-primeiro-ministro de ter chefiado um governo enorme e despesista; jurou ao povo de Cabo Verde, de pés juntos, que faria um governo pequeno de 12 (doze) membros – o que apelidou de governo enxuto -, por forma a poupar dinheiro para empregar nas áreas sociais. Um ano depois de ter ganho as eleições, aumentou o elenco governamental em mais de 50%, elevando-o de 12 (doze) para vinte membros, num microestado de 4033 km2, 48 (quarenta e oito) vezes mais pequeno que Senegal e com uma população de 500 (quinhentos mil) habitantes.

Sr. primeiro-ministro, um líder partidário e chefe de governo deve ser coerente; quem simula o seu povo para angariar votos não merece a renovação de confiança desse mesmo povo.

É absurdo num país que vive de remessas de emigrantes e ajudas externas contemplar no orçamento de estado 600 mil contos só para viagens dos governantes. Com este comportamento, o chefe do governo está a pôr a nu a sua insensibilidade para com os pobres e devia sentir-se envergonhado só de pensar em pedir a renovação de confiança ao eleitorado.

Essa insensibilidade ficou ainda mais patente, quando o seu “Delfim”, felizmente, ex-presidente da Câmara Municipal da Praia, Sr. Óscar Santos, que num ato cruel mandou demolir casas de bidon e de madeira, digo casas porque para essas gentes desafortunados essas eram as suas casas, no Alto da Glória na Cidade da Praia, em plena pandemia, colocando ao relento famílias com crianças de tenra idade, numa altura em que o lema era “nhós fika na caza”. Nessa altura, também, outros órgão de soberania não foram solidários com as pessoas de Alto da Glória. É minha convicção de que se no Palácio do Plateau, à frente do Parlamento ou da Comissão Nacional para os Direitos Humanos e Cidadania estivesse a cidadã Lígia Fonseca, uma senhora que é autónoma, com voz própria, sensível aos problemas sociais dos cabo-verdianos e que não teme ameaças ou represálias de democratas de papel, o eco dessa barbaridade era outro e essas gentes do Alto da Glória encontrariam uma mão solidária nessa altura.

Cabo-verdianas e cabo-verdianos, estamos diante de um governo com apetência para rabidância, o que seria normal se não fosse de forma especulativa. Muitos estarão lembrados que, com a covid-19, este governo resolveu amealhar dinheiro com máscaras feitas pelas confeções nacionais, isto é, comprou todas as máscaras confecionadas, aplicou uma taxa, passou para as farmácias que por sua vez também aplicavam a sua, para finalmente chegar à população a 235$00 unidade, quase o dobro do preço que comprou nas confeções enquanto que as importadas foram vendidas a 400, 500 e até 600$00 num país que mais de metade da população não consegue ter 90$00 (noventa escudos) por dia, o equivalente a 1 dólar ou menos que 1 euro por dia.

Como Deus não dorme, pouco tempo depois, os chineses e outras firmas nacionais inundaram o mercado com máscaras a preços 15 vezes inferior. Consequências? Por falta de visão, neste momento estão na Empresa do governo, EMPROFAC, centenas de milhares de máscaras a embolorar.

Esse e outros motivos serão as razões para levar o primeiro-ministro a baixar na próxima estação e entregar o comboio a Drª Janira Hopffer Almada.

Cabo Verde neste momento tem um primeiro-ministro de avales e sombra coco.

A minha avó dizia que quem não cuida dos seus e que presta auxílio ou socorro só às pessoas fora do seu círculo familiar é sombra coco. Efetivamente, este adjetivo assenta perfeitamente ao nosso primeiro-ministro que já distribui milhões em avales aos islandeses, com o intuito de salvar os TACV. Com esses milhões, os nacionais também podiam salvar os nossos transportes aéreos.

Isto também é válido para os transportes marítimos quando não criou as condições para que os empresários nacionais pudessem concorrer em pé de igualdade com os operadores estrangeiros na exploração das linhas marítimas nacionais, entregando aos estrangeiros que também, à semelhança dos nacionais, não tinham capitais.

É este país de emigrantes, que, no século passado viu os seus nacionais a serem amparados no Senegal, Guiné-Bissau e outros países africanos, onde ainda residem muitos descendentes, durante cinco anos desta governação, nada foi feito no sentido de simplificar a legalização desses nossos irmãos da costa ocidental de África que agora vêm para Cabo Verde em busca de uma vida melhor. Muitos deles já podem exercer o seu direito de votar e saberão dar melhor destino aos seus votos no dia 18 de Abril.

Os deputados Nacionais do Movimento para a Democracia para a emigração passaram cinco anos a falar só do fundo do ambiente até que o tribunal veio a dizer que não houve desvio dos tais milhões. Apresentam como os únicos trunfos a emissão do passaporte em uma semana e a criação do consulado em Nice, França. Só não dizem que o nosso passaporte, que em termos de peso é o que é, duplicou o preço e que é um dos mais caros do mundo: seis mil escudos em Cabo Verde e 60 euros para Europa e 68 euros para América, num país onde o salário mínimo é de 13 mil escudos. A título exemplificativo, Portugal, com um salário mínimo de 665 euros mensal, o seu passaporte custa 65 euros. Eles também não dizem que nada é gratuito no consulado de Nice, porque quem se desloca a esse serviço paga para ser atendido.

Este governo insensível, depois de receber um forte aviso nas eleições autárquicas, virou fadjado. Agora, às vésperas das eleições anda a distribuir bicicletas para os peixeiros, paga as faturas de luz e água dos endividados e possivelmente antes do dia 18 distribuirá cheques para compras nos minimercados do país. Essa história de bicicleta poderá ter sido copiada da Guiné-Bissau, onde, no final da década de 90, o general Nino Vieira enquanto candidato presidencial distribuiu milhares desses meios de transporte nas tabancas, mas, infelizmente, as bicicletas de nada serviram nessa altura. Nino foi derrotado em todas as frentes pelo seu opositor Kumba Yalá.

Que ninguém pense que sou contra a distribuição de bicicletas aos peixeiros. Conhecendo a orografia do nosso país montanhoso, de clima quente e seco, que exigirá muito esforço aos peixeiros, mormente se tiverem a bagageira cheia, eu ia mais além. Na verdade, num país que segundo o ministro das finanças tem dinheiro que nunca mais acaba e que 600 mil contos são destinados apenas às viagens, comprava 300 Toyota Hilux de caixa aberta para esses homens que transportavam 200 ou 300 quilogramas de peixe e ainda levavam familiares como ajudantes de venda.

Finalmente, temos um primeiro-ministro que utilizou a criminalidade como o seu cavalo de batalha durante a campanha de 2016, conseguiu recrutar alguém do gabinete do ex-primeiro-ministro, ligado à informação e segurança para ministro da polícia. Esta técnica faz-me recordar o tempo da guerra fria em que as duas superpotências ex-União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e Estados Unidos da América recrutavam agentes secretos que eram infiltrados em território inimigo para fornecerem informações sensíveis aos seus respetivos governos.

O Sr. Ulisses soube infiltrar com mestria, enquanto oposição, no palácio da Várzea, trazendo alguém para ministro que enquanto Inspetor da Polícia judiciária imiscuía com frequência nas operações dos Agentes da PN e, consequentemente, protagonizou vários conflitos. Portanto, por mais dinheiro que dê à Polícia, jamais conseguirá conquistar a amizade e a confiança da classe. O estado em que se encontra o país neste momento em termos de segurança interna revela a aposta falhada do Sr. Ulisses.

Este ministro quando colocado perante a falta de segurança fala de câmaras de videovigilância como se tivesse descoberto a pólvora. As câmaras de videovigilância são do século passado. Países da Europa, África e América têm câmaras de videovigilância há cerca de seis dezenas de anos e nem por isso deixaram de ter crimes. Nova Yorque que tem câmaras desde 1965 continua com criminalidade elevada, mesmo em 2020. Portugal que foi considerado o 3º país mais seguro do mundo, a esmagadora maioria das suas cidades não têm câmaras de videovigilância. Em algumas são instaladas e desinstaladas sazonalmente e outras recusam categoricamente a instalação desse dispositivo com argumento de que mexe com a privacidade das pessoas.

As câmaras são apenas um auxiliar que deve estar associado a outras formas de combate ao crime, para além de ser um instrumento caríssimo. Os 22 (vinte e dois) postes com câmaras na ilha da Boa Vista, a terceira maior ilha de Cabo Verde com 620 km2 e transitável de norte a sul, recém-inauguradas com pompas e circunstâncias custaram ao país 100 (cem mil contos); os 33 postes do Sal são 147 mil contos e os de S. Vicente 750 mil contos, preço que nós os contribuintes teremos de pagar tostão por tostão, sem acrescentar a sua manutenção.

Outro argumento falacioso do ministro é a disponibilidade de meios de transportes. A polícia sempre teve meios de transporte. Umas vezes com mais, outras vezes com menos à semelhança do que se passa com todos os serviços públicos. Como equipamentos perecíveis que se deterioram rapidamente, devem ser renovados periodicamente.

A polícia precisa de uma Direção clarividente, que trabalha sem show off, que martiriza agentes de trânsito em cada passadeira bem sinalizada nas principais avenidas da capital para mandar parar viaturas para os transeuntes passarem, mostrando a presença policial enquanto becos e belecos dos bairros estão descobertos.

A recente instalação do Comando de Investigação criminal numa das avenidas mais movimentadas da capital, que dá acesso a duas das principais praias balneares, Prainha e Quebra Canela, num dos bairros mais caros da Praia, em frente ao hotel casino do multimilionário macaense David Show é show off para impressionar os transeuntes. A investigação criminal não se compadece com shows, mas com confidencialidade. Não quero dizer que a Polícia não deve estar em sítios condignos ou nos bairros nobres de Cabo Verde. Contesto a colocação em instalações privadas a custo de rendas exorbitantes (centenas de contos) dinheiro que serviria para abastecer os agentes com máscaras e desinfetantes, quando o mesmo estado anda a distribuir edifícios públicos a particulares e tem outros tantos abandonados e a cair aos pedaços nesta cidade.

O último show da Polícia foi feito pelo Diretor Nacional de facto, Paulo Rocha, e posteriormente secundado pelo diretor de jure, Estaline, no encontro de Comandos realizados recentemente na Praia. Os citados afirmam que a criminalidade durante o reinado deles, 2016-2020, caiu 57%. Para de seguida apresentarem os seus dados estatísticos afirmando que só em 2020, ano da covid, em que o lema foi fika na kaza, detiveram e conduziram à esquadra 22.915 pessoas, um número superior à população de Tarrafal de Santiago, Ribeira Grande de Santo Antão e S. Filipe do Fogo. São pessoas que estavam a rezar?

Apreenderam 401 armas boca bedjo e 236 armas convencionais. Apreenderam 8.724 armas brancas e cerca de 9 mil munições de diversos calibres. O número de feridos a tiro, a pedrada e com armas brancas não mencionaram, mas, mesmo assim, se a criminalidade tivesse reduzido 57%, facilmente se conseguiria chegar à conclusão de que o povo viveu num autêntico inferno durantes esses quatro anos.

Em pleno século XXI, a Polícia Nacional não se compadece com o amadorismo nem podia ter à frente alguém sem formação policial. A primeira tarefa do próximo governo deverá ser a desestalinização da Polícia sob pena de continuarmos sem norte.

A partir do dia 18 de abril teremos a Drª Janira Hopffer Almada à frente dos destinos de Cabo Verde. Trata-se de uma pessoa que não está à procura de emprego, de uma senhora humilde e preocupada com os problemas sociais do país. Esta sensibilidade foi herdada da mãe Dra. Ana Hopffer Almada, professora universitária aposentada, que há anos, de forma altruísta, através da sua Fundação Donana, tem levado aos mais necessitados o mínimo para a sobrevivência. Do lado paterno herdou a honestidade, o sentido de justiça e o amor ao trabalho do eminente jurista, advogado de sucesso e um homem de Estado que é o Dr. David Hopffer Almada.

A Drª Janira pelo seu passado, pela sua entrega e pela sua ascendência, dá-nos a garantia de que a partir do dia 18 de abril Cabo Verde estará em boas mãos.

Com o contributo de cada fidju terra, dento e fora de Cabo Verde, este povo libertar-se-á das amarras deste governo de má memória.

Cidade da Praia, 15 de Março de 2021

Fonte: SantiagoMagazine