TACV devolve um dos boeings retidos em Miami à Icelandair

A TACV ou Cabo Verde Airlines (CVA) devolveu um dos três boeings 757, retidos em Miami (EUA), à Icelandair, na Islândia. Sabe o A NAÇÃO que, para já, os outros dois aviões deverão permanecer na companhia para uma eventual retoma das operações. Retoma essa que está a gerar nova inquietação entre os pilotos, porque impõe o limite de idade até 50 anos. Os visados falam em empurrão para a reforma.

O voo de devolução da referida aeronave, entre os Estados Unidos da América e a Islândia, sabe o A NAÇÃO, aconteceu a 18 de Dezembro passado, depois de ter sido várias vezes adiado. Restam assim os outros dois boeings 757, retidos em Miami (EUA), desde Julho passa- do, pela Icelandair, alegadamente por falta de cumprimento do contrato de “leasing” pelo Estado de Cabo Verde.

Conforme fontes deste semanário, para já, os outros dois aviões devem continuar na TACV/CVA para uma eventual retoma das operações nos próximos meses. É que a administração da companhia informou recentemente os sindicatos afectos à empresa, em comunicado, que está a programar o arranque das formações e “refrescamentos” para o “pessoal”, para apoiar a posterior retoma dos voos.

O comunicado, garante Paulo Lima, presidente do Sindicato Nacional de Pilotos da Aviação Civil (SNPAC), indica alguns requisitos que serão seguidos pela empresa, em relação à selecção do pessoal afecto à eventual retoma, que têm a ver com o contexto da covid-19.

“Tomaram como justificativa a questão da covid-19, então pu-eram algumas restrições em que não ia ser toda a gente a entrar no início das operações. Entre as restrições, está a imposição de limite máximo de idade até 50 anos, e histórico de doenças como diabetes, cardiovasculares e pulmonares (essas coisas assim…)”, explica.

Regresso condicionado

Só que estas restrições relativamente à idade máxima de 50 anos para o regresso às operações, não caiu no agrado de muitos, especialmente dos comandantes mais antigos. “Muita gente tem mais de 50 anos e fica de fora”, clarifica Paulo Lima.

Uma medida que na sua óptica pode ter a ver com a situação da covid-19 que “piorou”. “Estamos à mercê (da empresa), mas de qualquer maneira dependemos sempre da situação exterior”, lembra.

Mas, desde essa comunicação aos sindicatos, por parte da administração da TACV/CVA, sobre a preparação das formações e “refrescamentos”, nada mais foi dito.

Da sua parte, Lima garante que informou os associados do SNPAC, e diz acreditar que o mesmo terá acontecido com os outros sindicatos que também terão informado os seus membros. “Por isso acredito que todo o mundo está a par”.

Toda a gente no chão

A fazer fé na administração da TACV/CVA, a preparação para retoma deve acontecer em finais de Fevereiro. Só que, para isso, coloca-se a questão das licenças.

“Todo o mundo tem a licença caducada e há que ter toda uma preparação. No comunicado foi dito que iam iniciar as formações em fins de Fevereiro, para dar apoio ao início das operações e que iam selecionar o pessoal, mas não adiantaram muita coisa”, acrescenta Paulo Lima.

Por outro lado, a acontecerem, “as formações, refrescamentos e, no caso dos pilotos que têm de ir para o simulador”, poderão demorar, mais ou menos, entre um, a um mês e meio, tempo para “estar toda a gente em dia”.

Questionado sobre se acredita numa retoma efectiva, desta vez, da TACV/CVA, Paulo Lima diz que, para ser sincero, está um “pouco apreensivo”, em parte, devido à situação que se vive a nível internacional.

“Temos de fazer a leitura do que está a acontecer lá fora, para ver o que está a acontecer aqui. Estamos a depender da abertura total das fronteiras e com a retoma da economia, espero que a companhia esteja a trabalhar nesse sentido, com novos planos de negócio, para adaptar à nova situação”.

Pese embora isso seja um assunto sobre o qual o sindicalista diz não ter quaisquer informações, deixa transparecer que espera “realmente” que a companhia esteja a trabalhar nisso.

“A companhia tem de ser proactiva e buscar novas oportunidades”. O sentimento entre os pilotos, avança essa fonte, é misto: “Alguns mostram-se apreensivos, outros esperançosos, outros estão com um pé atrás…”.

Alguns ouvidos pelo A NAÇÃO, e que não se quiseram identificar com receio de represálias, dizem mesmo que “ninguém diz nada sobre a real situação da companhia e que estão a “esconder a verdade” aos trabalhadores. “Dizem que tudo está bem, mas não está”, lamentou um dos pilotos a este semanário.

Promessas adiadas

O certo, é que, de facto, desde a última reunião realizada a 16 de Novembro passado, entre o Governo, através do ministro das finanças e vice-primeiro-ministro, Olavo Correia e o ministro da tutela dos transportes e turismo, Carlos Santos, e os sindicatos afectos à TACV/CVA, nada foi feito em relação às promessas deixadas em cima da mesa.

É que, aos sindicatos, Olavo Correia e Carlos Santos disseram que o processo de negociação entre Governo e a Icelandair seria fechado “ainda em Novembro”, estando-se, na altura, como garantiram, na fase de finalização das condições impostas e dentro de dias seria comunicado o desfecho das negociações. O que até à data, não veio acontecer.

“Até agora, não se viu nada”, garante Lima, questionando que não sabe “porquê que se faz essas reuniões” se, depois, “ninguém diz nada”. Enquanto isso, “estamos todos à espera”.

Questionado se acredita que a “esperança” na retoma das operações, através do eventual arranque das formações e “refrescamentos, possa ser uma medida eleitoralista, dado as legislativas de Abril, o sindicalista é directo. “Acredito que poderão jogar com isso”.

Recorde-se que desde 2016, mesmo depois da privatização, o actual Governo já injectou mais de 50 milhões de euros na TACV/ CVA em avales concedidos. Isto depois de ter dito, na última campanha legislativas de Março de 2016, que não iria injectar nem um tostão do dinheiro público na companhia.

“Empurrão para a reforma”

comandante Emanuel Fonseca

O comunicado da administração da CVA/TACV enviado aos sindicatos, contendo requisitos e restrições para a chamada de funcionários, nomeada- mente pilotos, não caiu no agrado dos visados. Em causa está, sobretudo, a limitação até 50 anos de idade para voar.

Há 38 anos na TACV, o comandante Emanuel Fonseca (61 anos) mostra-se indignado: “Como profissional, toda a gente gostaria de estar a voar. Pode até ser que algumas pessoas queiram ir para a reforma, mas esta imposição do limite de 50 anos é o mesmo que ser empurrado para a reforma”.

Embora a nota recebida não seja “muito conclusiva”, Fonseca não tem dúvidas de que a mesma é “discriminatória” e violadora de “todos os princípios e liberdades” e que por isso um grupo de pilotos decidiu contestar tanto essa, como outras medidas.

“A nota viola o princípio da detenção de uma licença e certificado médico. Há pessoas que têm menos de 49 anos e que estão inibidas de iniciar os voos por causa de outras alíneas que estão no comunicado enviado. Não é só a questão da idade, o comunicado contém certos princípios que violam o direito mais elementar de qualquer piloto”, garante.

E justifica porquê: “Se você é detentora de uma licença, um certificado médico, a validade da licença incluiu a validade do boletim médico, assinado por uma autoridade competente que atesta a condição física para voar”.

Perante isto, Emanuel Fonseca diz lamentar que, ao fim de todo este tempo de paralisação, a TACV/CVA apareça agora com “subterfúgios” de limite de idade até 50 anos.

“É uma forma discriminatória e não faz sentido. Você ou tem um certificado médico que diz que você está apto para voos, ou não tem. O certificado médico de categoria 1 é passado pela autoridade aeronáutica que diz que você está apto ou inapto para voar”, conclui, dando a entender que a classe de pilotos, pelo menos, não vai aceitar que a companhia imponha este tipo de condições.

Publicada na edição semanal do jornal A NAÇÃO, nº 700, de 28 de Janeiro de 2021.

Fonte: A Naçao