Site chinês denuncia ‘lobbies’ a favor de amigos e famílias próximas do MpD

O enfoque é na família Santos, do presidente da Assembleia Nacional, Jorge Santos, cujo irmão, Maurício Santos, lidera uma sociadade que tenciona adquirir a Emprofac, supostamente, por meio de lobbies. Mas o site Chine-Lusophone Brief (clbrief.com), um serviço que trata das relações comerciais da China com os países de língua portugesa, traz também à tona eventuais tráficos de influência a favor das famílias Fernandes e Silva e ainda aponta para certos cargos de chefia na Administração Pública e empresas detidas pelo Estado “oferecidos” por Ulisses Correia e Silva a amigos pessoais e antigos colegas de escola, os da então ‘Turma A’ do Liceu Domingos Ramos, que regularmente se encontram em almoços e jantares em diferentes sítios – uma tradição que UCS raramente falha.

Essa situação, constata o clbrief.com, com sede em Macau, criou inclusive mal-estar nos círculos do MpD próximos de Carlos Veiga, ex-chefe do Governo e atual embaixador de Cabo Verde em Washington, acrescentando a publicação que, nesse quesito, Humberto Cardoso, ex-dirigente do MpD e actual director do jornal Expresso das Ilhas, “está entre os que expressaram descontentamento com mais veemência”. A peça do clbrief.com foi publicada em finais de Julho, mas dada a relevância dos assuntos abordados e a qualidade das informações nela contida, Santiago Magazine publica o artigo (originalmente editado em inglês) na íntegra.

«As famílias da Saúde da Riqueza em Cabo Verde

A saúde está no coração da família Santos, uma das mais influentes de Cabo Verde, cujo membro mais proeminente é Jorge Santos, presidente do parlamento e uma figura-chave dentro do partido liberal Movimento pela Democracia (MpD), que detém a maioria parlamentar e apoia o atual presidente. Com o desdobramento de várias privatizações, espera-se que os Santos reforcem ainda mais a sua posição no setor da saúde.

Com Jorge Pedro Mauricio dos Santos (nascido em 1962), ex-presidente da Associação Nacional de Municípios de Cabo Verde (ANMCV) e membro de alto escalão da OECV (Ordem dos Engenheiros de Cabo Verde), diretamente envolvido na política na Assembleia Nacional e o partido MpD (líder, 2006–2010), outro membro da família, António Maurício Santos, é agora o principal agente nos negócios da família, de acordo com nossas fontes.

Secretário de Estado dos Transportes na década de 1990, no governo de Carlos Veiga, António Maurício Santos foi o diretor de campanha do MpD nas eleições legislativas de 2016 que levaram Ulisses Correia e Silva ao poder.

Suas irmãs também têm interesses no setor de saúde: Helena Santos, gerente farmacêutica da cidade de Praia, e Edite Santos, membro do conselho da Inpharma (40% da Emprofac) – e, até 2016, membro do conselho da estatal a farmacêutica Emprofac, que está prestes a ser privatizada.

Suas origens comuns na ilha de Santo Antão, mais especificamente na cidade de Ribeira Grande, também conectam a família Santos ao ministro da Saúde Arlindo Nascimento do Rosário, fato que também é considerado vantajoso no atual contexto de privatização.

O interesse da família Santos no Emprofac está bem estabelecido, pelo menos desde o primeiro anúncio de privatização, realizado no final dos anos 90, pelo então vice-primeiro-ministro Gualberto do Rosário.

Com o relançamento das privatizações após a vitória eleitoral do MpD em 2016, a família Santos rapidamente se posicionou como uma das principais interessadas em comprar a empresa. Para isso, criou uma empresa chamada Sodifarma, na qual desejava combinar as principais farmácias do país.

Foi solicitado um montante de CVE3 milhões (US $ 30.548) a cada uma das farmácias para constituir o capital social da Sodifarma. Mas a intenção de envolver a maioria das farmácias nessa sociedade fracassou e as empresas da família Santos acabaram subscrevendo a maior parte do estoque.

Após o estabelecimento da Sodifarma, o governo foi solicitado a autorizar a importação de medicamentos pela empresa, mas este foi rejeitado para evitar a concorrência do Emprofac, que detém o monopólio da atividade. A possível abertura do mercado de produtos farmacêuticos é vista como inviável devido ao pequeno tamanho e insularidade do país.

Mas a família Santos terá que lutar pelo monopólio do comércio farmacêutico, de acordo com nossas fontes. A empresa farmacêutica portuguesa Mercafar, SA também manifestou interesse na privatização da Emprofac. Colabora com a Emprofac desde 2008, prestando serviços de consultoria e treinamento nos setores técnico, sistemas de informação, vendas e logística, e mais recentemente apoiou a abertura do novo armazém da empresa na Praia e o treinamento de funcionários na área de distribuição.

A Mercafar, SA pertence ao Cooprofar-Medlog Group, uma holding da Cooprofar-Cooperativa dos Proprietários de Farmácia, CRL, a maior cooperativa portuguesa, que fornece mais de 1.000 farmácias em todo o país e faturou mais de EUR 350 milhões (US US $ 421,26 milhões) em 2017.

Quem adquirir o Emprofac também terá uma posição privilegiada na Inpharma (40%), que produz 35% dos medicamentos utilizados no país. O objetivo é atingir 50% – e possivelmente a internacionalização – com a conclusão de uma nova planta de US $ 6,74 milhões, prevista para o segundo semestre de 2020, e uma segunda instalação, prevista para começar a construção em 2021.

O governo de Ulisses Correia e Silva impôs, com o apoio de parceiros internacionais, uma agenda de liberalização econômica, na qual a retirada do Estado das empresas, na maioria dos casos fortemente endividada, a ser concluída até 2021, é de particular importância. Nos 15 anos de governança do PAICV (2001 – 2016), nenhuma empresa pública foi privatizada.

Além do Emprofac, o executivo da Silva pretende vender ou arrendar empresas relacionadas a telecomunicações (NOSi e CVTelecom), portos (ENAPOR), aeroportos (ASA, AM 1999), imóveis (IFH), estaleiros (CABNAVE), serviços postais (Correios). Cabo Verde), seguros (Promotora) e hospitalidade (EHTCV). O processo de privatização da TACV Internacional, uma transportadora já administrada pela Icelandair, e a concessão de transporte entre ilhas, já foram concluídos.

Os Santos não estão sozinhos; várias outras famílias próximas ao MpD têm ascendido a posições de poder no estado e em empresas públicas.

A distribuição pelo PM Ulisses Correia e Silva, a ex-colegas e amigos pessoais, de cargos na administração central e empresas públicas criou mal-estar nos círculos do MpD perto de Carlos Veiga, ex-PM e atual embaixador em Washington. Humberto Cardoso, ex-membro do parlamento e ex-líder do partido, está entre os que expressaram descontentamento com mais veemência.

Na distribuição de cargos, destaca-se a importância assumida pelas famílias Fernandes e Silva. Ex-vizinhos de Ulisses Correia e Silva no bairro Platô, o centro histórico da Praia onde Silva cresceu, quatro irmãos da família Fernandes foram nomeados para cargos de chefia no Estado: António Fernandes, CEO da NOSi; José Augusto Fernandes, presidente do Comitê Executivo do Instituto Nacional de Seguridade Social (INPS); Albertino Fernandes, CEO da FICASE (Fundação Cabo-Verdiana de Ação Social Escolar); Fátima Fernandes, administradora do IE (Instituto de Estradas).

Da família Silva, que compartilha algum grau de parentesco com o primeiro-ministro, foram nomeados Eunice Silva, ministra de Infraestrutura, Planeamento e Habitação; Luís Silva, deputado do MpD; e Mayra Silva, gerente principal da Casa do Cidadão.

Entre o grupo de amigos pessoais de Ulisses Correia e Silva estão Guevara Cruz, técnico em informática, nomeado diretor nacional de Administração Pública, e Carlos Santos, nomeado diretor executivo da NOSi, depois de vários anos como o braço direito do então primeiro-ministro José Maria Neves (JMN) na unidade de Reforma do Rstado.

Outro ‘lobby’ promovido por Ulisses Correia e Silva é o dos ex-colegas de escola (conhecidos como ‘turma A’). Do grupo, que ainda se encontra na cidade da Praia com a presença de Silva, vários nomes foram apresentados e agora ocupam posições importantes na administração do Estado, como a diplomata Maria de Jesus Mascarenhas, Alexandre Monteiro (CEO da Electra) e Gil Évora (CEO da Emprofac)».

Fonte: Santiagomagazine