Política e Trafulhice

1. Sabe qual é um dos maiores problemas da política e da democracia nos tempos de hoje? A política foi invadida por trafulhas. Há que dizê-lo, claramente. Sendo Bolsonaro, no Brasil, o exemplo maior desta invasão. Um trafulha é uma pessoa que diz ou faz trafulhices. É a mesma coisa que ser um aldrabão, um fazedor de embustes, intrujão, trapaceiro ou um vigarista. Daí esta imagem degradante que o campo político tem hoje um pouco por tudo o mundo, quando, de facto, só lá estão, no campo, cada vez menos políticos de verdade. Estão lá alguns políticos, mas quase que só lá estão, trafulhas.

trafulhice

2. Ontem, dia 2 de junho, James N. Miller, membro do Conselho Científico da Defesa dos EUA demitiu-se do seu cargo. Na sua carta pública de demissão, dirigida ao Secretário de Defesa, ele menciona a existência de linhas vermelhas, ou seja, de princípios que ele estabeleceu para ele mesmo que nunca iria ultrapassar no exercício do seu cargo político. Sem esconder-se atrás de manobras com questões de legislação, sentiu que tinha chegado a hora de escolher entre apoiar a decisão de colocar o exército americano nas ruas contra o povo americano ou sair do seu cargo. Saiu. Recusou-se a participar de tamanha loucura. Saiu em nome da decência e manutenção de princípios que estipulam limites à sua conduta pessoal;

3. Por cá, há muito que os limites na conduta na vida política perderam valor, significado e decência. Não há limites! Há ministros que tutelam empresas para as quais cria leis de incentivos fiscais, sendo sócio dessas mesmas empresas, através de esposas; há deputados da nação e respetivas esposas, também, que são sócios e donos de empresas que fazem negócios com o Estado, fazendo publicidade comercial, tráfico de influência e concorrência desleal no mercado; há vereadores envolvidos em escândalos gigantescos de vendas de terrenos municipais. O inacreditável é virem a público, através de grandes entrevistas e conferências de imprensa, assumir que são situações normais, numa clara tentativa de impor a trafulhice como uma “nova normalidade”. É esta – até então –impensável tentativa que está a destruir a ínfima réstia de credibilidade, confiança e esperança que o povo tem vindo a depositar nos políticos;

4. É que na campanha eleitoral de 2016, o MPD fez alarde de ideias populares como “não pendurar a linguiça no pescoço do gato”, desferindo, com esta comparação, uma enorme machadada na imagem pública de gestores do Estado, para, ao chegar ao poder, promover desavergonhadamente todas estas ligações entre ministros, deputados e empresas. Indo ao ponto de estipular que cada militante, entenda-se “gato”, que ganhe a nomeação para a presidência do conselho de administração (PCA) ou a direção de uma entidade pública, assine uma carta munida de mágicos poderes impeditivos de “comer a linguiça”;

5. Mas, até aqui, todas estas trafulhices que o MPD montou, implicaram, unilateralmente, o seu governo, seus ministros e seus deputados. A novidade surge com esta tentativa descarada de fazer trafulhice dentro da própria Assembleia Nacional e, igualmente grave, com a agenda do Ministério Público. O MPD acaba de atingir o grau máximo de trafulhice com esta tentativa de manipulação da opinião pública através do lançamento da ideia de que o PAICV quer atrasar o julgamento de processos nos tribunais. O MPD tem utilizado esta velha tática – que até teve resultados no passado recente: apresenta propostas, ficando à espreita que, caso o PAICV não aprove, saia à rua lançando mentiras para encurralar o partido de Cabral. Mas, ao dizer que o PAICV quer causar o atraso de processos para não serem julgados antes das eleições autárquicas, não está o MPD a assumir também que já conhece de antemão a agenda de julgamentos marcados?!

6. Com esta postura o MPD contribui para o descrédito da política. É a trafulhice como forma de fazer política.

Nota: a proposta que o MPD recusou determinantemente em incluir era para que o Artigo 3º da Lei nº 83/IX/2020, de 4 de abril, fosse clarificado de modo a pôr fim à interpretação que tem sido feita, designadamente, pela Direção Geral do Trabalho, e que vem impossibilitando que várias empresas e muitos trabalhadores recebam os 35% previstos no âmbito de medidas relacionadas com o chamado lay-OFF.

Fonte: SantiagoMagazine