PAICV REAGE À DECISÃO DO GOVERNO DE REVERTER A PRIVATIZAÇÃO DOS TACV

O Senhor Primeiro-Ministro escolheu o domingo passado, em horário nobre da televisão nacional, para comunicar ao país o desfecho infeliz de um negócio que todos sabiam que já tinha falido, há muito tempo.

Todos já sabiam, menos o Primeiro-Ministro que, cegamente, acreditou num conto de fadas que levou o país a perder milhares de contos para além da perda de tempo, de oportunidade e de investimentos rentáveis e credíveis.
Estamos perante um negócio, chamado de privatização, que não nos trouxe absolutamente nada. Não nos trouxe mercado, não nos trouxe capital e não nos trouxe experiência nenhuma.

É um negócio onde o parceiro estratégico ganha tudo e Cabo Verde perde tudo e em toda a linha a começar por um aluguer (leasing) absurdo, em condições muito desfavoráveis se comparado com os preços praticados no mercado normal de transportes aéreos.

Todos devem estar lembrados que estamos perante uma privatização em que o vendedor em vez de receber, pagou dinheiro ao comprador e que o mesmo parceiro não pagou nem um tostão com relação ao compromisso assumido.
O PAICV já tinha alertado sobre este negócio lesivo aos interesses do país e fê-lo de forma repetida e continuada porque sabia que tinha do seu lado a razão e a verdade.

Mesmo quando o Governo simulou a vinda do avião nas vésperas das últimas eleições legislativas, o PAICV teria alertado a todos que estaríamos perante uma encenação com o fim exclusivamente eleitoralista e que o avião não iria voar para nenhum país.

Tanto tínhamos razão que o avião de facto não conseguiu realizar um único voo desde que chegou para testemunhar as eleições e garantir alguns votos ao Senhor Ulisses Correia e Silva.

Hoje todos sabemos que o país foi literalmente enganado, mas já não se pode fazer mais nada porque as eleições já foram feitas, os resultados já foram proclamados e o Governo já foi investido.

O episódio mais recente foi a encenação de tentar descolar o avião no Sal fazendo crer que desentendimentos, descoordenação ou outros problemas impediram aquela operação tantas vezes anunciada e tantas vezes adiada.
O próprio Governo não estava interessado que o avião levantasse voo, pois se fosse sua vontade ver o avião no ar, acreditem que o avião voava de facto, porque o mesmo Governo que obrigou a ASA a investir neste saco sem fundo, pagando até o salário dos trabalhadores, conseguiria de certeza convencer a ASA a autorizar aquela operação.

A situação poderia ser resolvida desde que os donos dos aviões ou, se quisermos, o parceiro estratégico, retirou todos os seus aparelhos para serem colocados num lugar onde o Governo de Cabo Verde não podia fazer absolutamente nada.

Aliás este negócio não podia nunca ter acontecido naquelas condições tão desvantajosas, quanto vexatórias, para o país, mas parece que outros interesses, que não são, seguramente, os convergentes com os interesses de Cabo verde, falaram mais alto.

Agora, mais uma vez para anestesiar-nos e enganar-nos a todos, o Primeiro-Ministro finge bater com os punhos na mesa, simula falar grosso com o parceiro estratégico e desfaz a parceria, em direto na Televisão, deixando o acionista aparentemente surpreso.

Para baralhar-nos ainda mais o chefe do Governo volta a jurar que o negócio era bom, o parceiro era estratégico e que os compromissos, apenas os de março, que nós desconhecemos, não foram cumpridos.

Entretanto o Primeiro-Ministro, mais uma vez, não nos diz tudo. Não nos diz qual é o prejuízo que significa para Cabo Verde a reversão tardia desta privatização, que nem deveria ter acontecido naqueles termos. Não nos diz claramente quantos recursos foram investidos naquele negócio falhado e os prejuízos que Cabo Verde irá averbar.

O que se sabe é que, só em avales e garantias o Estado de Cabo Verde já perdeu nos últimos tempos por volta de 20 milhões de euros, apesar de todos os avisos e de todas as advertências.

O que se sabe também, é que neste negócio falharam todos os objetivos e foram incumpridas todas as metas.

Falharam os objetivos de montagem do HUB do Sal, falharam os objetivos de aquisição dos 11 aviões até finais de 2017, falharam os objetivos da conquista dos mercados e falharam os objetivos de não injeção dos recursos do tesouro do Estado de Cabo Verde naquela empresa.

E do nosso lado foi desmantelada uma transportadora aérea, foi entregue o mercado doméstico em regime de monopólio, foi desestruturado um serviço de manutenção de qualidade, foram deslocalizados trabalhadores com custos reais, designadamente, com desestruturação de famílias e foi abandonado o chamado mercado da “sodade” que, no momento de desespero, voltou a ser a tábua de salvação.

Tudo está mal explicado, mesmo o que está a acontecer com o mercado doméstico e o PAICV já tinha alertado para a situação com alguns anos de antecedência. O que nos vale é que a verdade pode tardar, mas sempre acaba por vir ao de cima.

Se calhar, agora com muitos anos de atraso, o Governo vai colocar os pés no chão e reverter a privatização, como já anunciou e aproveitar a oportunidade para relançar os TACV nos voos domésticos e voltar a lançar as bases para a estruturação de uma transportadora aérea nacional.

O PAICV continua a defender que negócios desta natureza devem ser feitos com transparência, com rigor, com envolvimento dos sujeitos políticos e com firmeza na defesa dos interesses nacionais.

E a pergunta que fica no ar, é que se não é chegada a hora de as autoridades competentes investigarem, a fundo, os contornos deste negócio que tanto prejuízo já deu a Cabo Verde.

Rui Semedo
Presidente do PAICV
Praia, 22 de junho de 2021

Fonte: PAICV