O Embaixador Político, o Cônsul Honorário e as desculpas de mau pagador

…qualquer pretensão em equiparar esta brilhante página da nossa diplomacia com o actual caso Cônsul Honorário / Chega, só pode ser entendida como uma tentativa de branqueamento da imagem dos promotores deste, saída de uma mente imbuída de má fé e que não olha a meios para atingir os fins, mesmo que para tal tenha que vilipendiar a nossa história de país independente. Sejamos claros: estamos perante um escândalo inqualificável, cujos contornos não foram explicados por quem de direito, apesar da retórica e das acrobacias do Governo e do sistema MpD. Em rigor, o caso Cônsul Honorário / Chega só pode ser considerado um exemplo paradigmático de desmando governamental, de falta de transparência, de ganância, de rabidância diplomática, sem se aquilatar dos males causados à boa imagem de Cabo Verde, essa sim, construída com sacrifícios e patriotismo pelos pioneiros de 1975 que tiveram a lucidez de manter o aeroporto do Sal aberto aos aviões sul-africanos.

A vida política nacional tem sido dominada nos últimos dias por graves suspeições recaídas sobre o Governo, desde que o canal SIC publicitou o estranhíssimo caso da nomeação de dois Cônsules Honorários nos Estados Unidos da América (Flórida e New Jersey), da sua rocambolesca viagem a Cabo Verde para a tomada de posse, bem assim da intrigante presença na delegação de dirigentes de um partido de extrema direita portuguesa, o Chega, racista e virulentamente anti-emigrantes, ao que parece como convidados de honra, tudo isso com direito a discursos, fotos, posts, vídeos, guarda de honra militar, etc..

Como seria de esperar, a sociedade cabo-verdiana, já agastada com a reiterada falta de transparência do Governo, reagiu muito mal a mais este triste caso que mancha a nossa imagem de país credível e sério e exigiu explicações, não se contentando com a simples demissão do Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Apanhado com “as calças na mão”, em vez de assumir as suas responsabilidades perante os cabo-verdianos, explicando o porquê de tais nomeações e clarificando as razões das ligações perigosas à extrema direita, o sistema MpD entra num processo de negação das evidências e desdobra-se em sucessivas manobras de diversão, com recurso a argumentos falaciosos, com o objectivo de confundir a opinião pública, indo ao ponto de se socorrer de factos ocorridos nos primórdios da independência, para tentar justificar o injustificável.

Com essa estratégia, o sistema MpD pôs-se em campo e mobilizou as suas tropas, inventando argumentos, cada um mais escalafobético que o outro, numa tentativa falhada de apresentar o presente escândalo como um caso isolado, fruto de um mero descuido de quem conduziu o processo das nomeações, portanto, nada de grave e sem qualquer impacto negativo na imagem de Cabo Verde.

Para além dos pronunciamentos do Governo, das declarações do Embaixador Carlos Veiga – quem está por detrás desse caso – da conferência de imprensa da Secretária-Geral do partido e da acção do exército de “conselheiros populares” nas ruas e nas redes sociais, o sistema MpD recorreu ainda ao Embaixador Político em Lisboa, Dr. Eurico Correia Monteiro, para num debate com a Dra. Cristina Fontes, transmitido via net pela Radio Brockton FM, expandir, com ar grave e solene, o argumentário da actual maioria sobre o assunto em questão.

Abre-se um parentese para dizer que é duvidoso se um embaixador, embora “político”, deva estar ao serviço de um partido defendendo com unhas e dentes, na comunicação social, as teses deste, não deixando por mãos alheias a sua condição de destacado militante. Mas adiante.

Do cardápio dos argumentos que a maioria tem veiculado para ilibar o Governo das suas responsabilidades – classificando o caso como um acidente de percurso, um descuido sem importância –, o Dr. Eurico Monteiro destacou a questão da passagem dos aviões sul-africanos pelo Aeroporto do Sal, na altura da independência, para demonstrar que no passado também Cabo Verde esteve ligado a um partido de extrema direita, praticante do sistema Apartheid que oprimia os negros sul-africanos, à revelia da OUA. Portanto, deduz-se da opinião dele que é preciso ser-se compreensível com o Governo actual, pois, à semelhança do governo de 1975, a sua atitude foi ditada pela preocupação de mobilizar recursos para o desenvolvimento do país. Encurtando razões, os dois casos são ambos ou legítimos, merecedores de aplausos, ou perversos, condenados à reprovação.

Que argumento mais escalafobético, próprio de quem sabe que foi apanhado em falta e agora desunha-se em arranjar uma saída airosa, socorrendo-se de desculpas de mau pagador, mesmo se para tal tenha que conspurcar o percurso histórico de cabo Verde como estado independente. A verdade é que se está perante duas situações completamente diferentes e que não têm nada a ver um com o outro.

Ninguém tem dúvidas de que neste momento estamos perante ligações perigosas, conscientemente estabelecidas, sem necessidade alguma, pelo menos que fosse do interesse de Cabo Verde, deixando pairar no ar fortes suspeitas de se tratar de uma operação visando a satisfação de interesses particulares escusos.

No caso de 1975 o governo herdou uma situação que vinha do tempo colonial e que era vital para que o aeroporto do Sal continuasse aberto ao mundo e o país a funcionar, sem sobressaltos de maior. Seria uma irresponsabilidade de consequências catastróficas a proibição da passagem dos aviões sul-africanos, aliás tese na altura defendida por alguns “revolucionário” de serviço, hoje reconvertido a promotores de ligações espúrias com a extrema direita, xenófoba e anti-emigrante. O dilema à época se traduzia em permitir a passagem dos aviões e assegurar a sobrevivência do país, ou declarar a proibição tendo como resultado o encerramento do aeroporto, por falta de recursos, e a inviabilização de Cabo Verde, como país independente.

Movido por sentimentos patrióticos e pelo pragmatismo ditado pela correcta leitura da realidade, o Governo de então, sem hesitar, optou por defender os superiores interesses do país, mantendo a autorização de passagem.

Em abono da verdade, a passagem dos aviões da SAA não significava que Cabo Verde tivesse relações diplomáticas com a África do Sul ou deixasse de ser solidário com a luta dos povos sul-africano e da Namíbia. Consequente com as suas opções, Cabo Verde soube explicar à OUA o porquê da sua decisão, o que foi compreendido por esta organização. Prova da justeza da decisão das autoridades cabo-verdianas é que graças à medida adoptada, Cabo Verde pôde ser solidário com os povos da África Austral e dar um contributo inestimável para o fim do Apartheid, a libertação de Nelson Mandela, a independência da Namíbia e o estabelecimento da paz nessa parte do continente, acolhendo no solo cabo-verdiano e mediando várias rondas de negociações, nas quais participaram as diversas partes envolvidas.

Terá sido um dos momentos mais altos da história da diplomacia cabo-verdiana, cujo papel de primeiro plano nesse complexo processo foi reconhecido pelas Nações Unidas e pela comunidade internacional, nomeadamente os Estados Unidos da América, e pelo próprio Nelson Mandela. Um alto dirigente da Africa do Sul chegou mesmo a afirmar que o seu país jamais poderia pagar o que Cabo Verde fez por ele. A participação destacada de Cabo Verde no processo contribuiu grandemente para a construção da boa imagem do país, enquanto país credível e útil à causa da humanidade, apesar da sua pequenez.

É cristalino que os cabo-verdianos têm razões para se sentirem orgulhosos dessa página da nossa história, pois não só conseguimos manter o país a funcionar e a avançar, graças aos recursos que entraram via o aeroporto, como ainda granjeamos respeito e prestígio junto da comunidade internacional e contribuímos para o estabelecimento da paz numa parte importante do nosso continente.

Assim sendo, qualquer pretensão em equiparar esta brilhante página da nossa diplomacia com o actual caso Cônsul Honorário / Chega, só pode ser entendida como uma tentativa de branqueamento da imagem dos promotores deste, saída de uma mente imbuída de má fé e que não olha a meios para atingir os fins, mesmo que para tal tenha que vilipendiar a nossa história de país independente. Sejamos claros: estamos perante um escândalo inqualificável, cujos contornos não foram explicados por quem de direito, apesar da retórica e das acrobacias do Governo e do sistema MpD.

Em rigor, o caso Cônsul Honorário / Chega só pode ser considerado um exemplo paradigmático de desmando governamental, de falta de transparência, de ganância, de rabidância diplomática, sem se aquilatar dos males causados à boa imagem de Cabo Verde, essa sim, construída com sacrifícios e patriotismo pelos pioneiros de 1975 que tiveram a lucidez de manter o aeroporto do Sal aberto aos aviões sul-africanos.

Fonte: SantiagoMagazine