Jorge Carlos Fonseca. O populista-mor!

Misterioso este homem de meias palavras. Não mente, omite! Não diz, fala! Não afirma, sugere! Não olha, vislumbra!

O árbitro que nunca apita, porque recusa-se a entrar no campo para disciplinar o jogo, para jogar o seu papel. E se joga, há de ser sempre fora do campo. Por outras palavras, pode-se dizer que é o homem dos muros. Ou das bancadas. Onde se acomoda e se protege.

E, acomodado nas fileiras protetoras do muro, ou das bancadas, manda farpas ao país, estes dez grãozinhos de terra, vítima de dois anos sucessivos de seca, um virulento sistema de transportes, doméstico e internacional, poderoso desequilíbrio social, crescentes crimes contra crianças, mulheres e propriedades, manifesta castração da liberdade de imprensa, e significativa descredibilização das instituições democráticas.

Um homem que se esconde atrás de retóricas elaboradas a talhe de foice, para driblar o país, que um dia jurou proteger, e assim criar potenciais bases para ludibriar as suas próprias responsabilidades, enquanto órgão do poder do Estado e mais alto magistrado desta nação arquipelágica e diaspórica.

Aqui, no país do “jeitinho cabo-verdiano”, onde a palavra fiada ganhou estatuto de comunicação oficial à nação, com direito a horário nobre na televisão pública e tempo de antena para comentaristas escolhidos na calada das fichas partidárias, ou na cumplicidade das alcovas governativas.

Sim, precisamente aqui, é que o grande Jorge Carlos Fonseca descobriu, qual Colombo na travessia do mar largo, sinais de populismo, mas sem condições de triunfar.

“Em Cabo Verde, há sinais que surgem nas redes sociais e em alguma imprensa de algum tipo de populismo que pode ser sedutor, mas não acredito que haja condições de triunfo desse tipo de ideias”, declara, triunfante, dir-se-ia um viajante estafado, perdido, e que terá, repentinamente, vislumbrado uma ilha acantoada no meio do nada.

O populista-mor, figurativamente o pai do maior escárnio social e político que este país já viu algum dia, que é o programa “menos álcool, mais vida”, manda estas farpas, em forma de discurso, hipoteticamente perseguindo um único objetivo: tentar condicionar as vozes da sociedade civil, amedrontar quem não quer servir de trouxa nesta parada circular de comprar seis por meia dúzia, ou deixar-se trair por 30 dinheiros.

Surreal, poderá alguém sussurrar, a medo. Pode ser que sim. Sempre se atentou com os ouvidos e com os pensamentos se percebeu que o exemplo deve vir de cima.

É estranho como o mais alto magistrado da nação parece desconhecer que o que mais se oferece aos jovens deste país é o álcool. Aqui o desemprego jovem atinge cifras proibitivas, acima de 35%, a bolsas de estudos e outras alternativas de empoderamento de jovens não passam de discursos, como empreendedorismo, incubadora de negócios, entre outras palavras de ordem, hoje objeto de zombaria na sociedade cabo-verdiana, no quotidiano deste povo ilhéu, detentor de uma autoestima única, que o habilita a brincar com tudo, até com a sua própria desgraça.

Aqui, no país dos festivais, onde as drogas e o álcool ditam todas as regras e definem todos os programas, o populista-mor viaja de país em país, com o seu programa “menos álcool, mais vida” debaixo do braço, para propagandear um país solidário, um país preocupado com as causas sociais, eventualmente apenas para o inglês ver. Porque ele sabe, e sabe que o país inteiro sabe, que tudo isto não passa de bluff. E o inglês, este, cujo programa foi pensado à sua medida, finge acreditar e assumir a indumentária, contemplando de camarote a degradação moral de um país com cerca de 64% de população em idade compreendida entre 18 e 35 anos.

Aqui, neste país, onde pela primeira vez, o chefe de um Governo utilizou o púlpito da Assembleia Nacional, a casa do povo, para anunciar à nação que conseguiu mobilizar 10 milhões de dólares para socorrer as famílias rurais vítimas da seca, e estas apenas viram migalhas – animais morrendo de fome, hortas inteiras engolidas pelo sol, por falta de água, e alastramento de pragas, emprego público aquém da demanda, num cenário em que, em um mês, um chefe de família trabalha apenas 15 dias e outro chefe os restantes 15, e assim sucessivamente, a ver se a migalha consiga atingir o maior número de necessitados – sem que o mais alto magistrado da nação tenha sequer pronunciado uma única palavra, no sentido de alertar o Governo instituído a cumprir com a palavra dada, quanto mais não seja para assegurar as honras do Estado – porque um estado digno, é aquele que assegura as necessidades básicas do seu povo, como a comida, por exemplo.

Mas nem nestas situações, o homem que acaba de descobrir sinais de populismo em Cabo Verde, e que se afirma um presidente junto das pessoas, foi capaz de deixar a comodidade do muro, ou da bancada, para descer ao campo, ao terreiro do povo, e com o povo, lutar por mais direitos, mais responsabilidades e mais engajamento de quem administra os recursos do Estado, isto é, o dinheiro do povo.

Ou, ao menos para, com o povo, e pelo povo, lutar contra o triunfo do populismo, entrando no campo, e em campo, como um verdadeiro árbitro, disciplinar o jogo do poder e assim procurar alternativas para salvar a nação deste sinuoso caminho do capitalismo selvagem que o Governo insiste em conduzir o país.

Pois! Precisamente aqui, neste país, onde os empresários vivem pendurados às tetas públicas e a melhoria do ambiente de negócios não passa de treta, também preparada à medida do inglês… ver! Enfim, insignificâncias que passam despercebidas ao nosso populista-mor!

Fonte: Santiagomagazine