Formação superior. Diplomas pendurados – reportagem

Em 2018 mais de mil jovens concluíram o ensino superior no país. Os seus nomes juntam-se agora à extensa lista de jovens licenciados à procura do primeiro emprego. Num sector onde a taxa de desemprego ronda os 12%, os novos licenciados buscam mais qualificação, de olhos postos também em novos mercados.

Nas últimas duas décadas, o país viu nascer nove universidades. O ensino superior, antes privilégio de poucos, foi massificado e anualmente centenas de quadros são formados no país.

Uma dinâmica que não foi acompanhada pelo crescimento do mercado. Um diploma universitário deixou de ser um passaporte direto para o mercado de trabalho. É agora, para muitos jovens, sinónimos de um investimento com retorno incerto. O mercado não tem conseguido absorver os novos quadros. O desemprego entre os detentores de ensino superior passou de 4% em 2008 para 12% em 2016.

Formar para competir

Números que obrigam a novas estratégias de empregabilidade. A especialização é uma delas. Ganhar a preferência num mercado onde as escasseiam vagas exige também melhor preparação. Com o aumento do número de licenciados, cada vez mais jovens partilham a sensação de que uma licenciatura já não é suficiente. Por isso a continuação dos estudos parece um passo natural.

“Temos mais oferta de mão-de-obra do que vagas. Por isso o meu objetivo não é parar por aqui. Logo depois da monografia procurarei um estágio e no próximo ano uma pós-graduação ou mestrado. Já há muitos licenciados temos de especializar-nos cada vez mais, vir com melhor capacidade e conhecimentos para contribuir para o desenvolvimento do país” partilha Fernando Jorge, finalista de Economia.

Uma nova forma de pensar que tem-se refletido também na oferta formativa das instituições de ensino superior. Nos últimos 10 anos a universidade pública criou 17 programas de mestrado.

Para o ano letivo 2018/2019 as novidades em termos da oferta formativa passam sobretudo por novos cursos de pós-graduação mantendo-se as licenciaturas estabilizadas.

De olhos postos em novos mercados

A procura por cursos de pós-graduação não se restringe às universidades nacionais. Maria Salomé Vaz está de malas prontas para a República Checa. Cinco anos depois de concluir a licenciatura em Engenharia Civil no país, não conseguiu mais do que estágios temporários. Esperar já não é mais uma opção. Ingressou num programa de mestrado na esperança de que uma melhor qualificação poderá ajuda-la a melhor posicionar-se no mercado.

Salomé parte com um sentimento de desilusão, para com um mercado inóspito para quem quer dar os primeiros passos. “Se tivesse conseguido trabalho, certamente não teria optado por partir”, afirma. Contudo, ciente de que no país a procura supera de longe a oferta, não descarta a hipótese de permanecer fora do país caso surja uma proposta de trabalho aliciante.

A internacionalização é uma aspiração crescente entre os jovens que concluem o ensino superior no país.

Até Novembro de 2018 só para Portugal foram concedidos mais de 100 vistos para mestrados a estudantes cabo-verdianos.

As universidades têm também apostado em programas de internacionalização com resultados positivos.

“Em 2017, três estudantes nossos foram fazer estágio nas ilhas Canárias e duas ficaram a trabalhar. Neste momento temos empresas de vários países procurando por alunos nossos. Recebemos recentemente um pedido de uma empresa em Portugal que solicita estagiários com possibilidade de serem integrados como funcionários e instituições na Holanda interessados em alunos da área de tecnologias “ explica Roseli Morais, Administradora-geral da Uni-piaget.

A universidade pública, UniCV, também congratula-se com o bom andamento de projectos internacionais, que são projectos académicos com vertente de aplicação.

“Há o nível de envolvimento dos docentes enquanto investigadores, mas depois em termos daquilo que são as actividades conexas, como as conferências, actividades de terreno, etc aí já os estudantes participam”, explica João Cardoso, Pró- Reitor para a Área de Graduação e Formação profissionalizante da UniCV.

Estratégias que vão ao encontro das aspirações dos estudantes que sonham com voos mais altos.

“No passado fez-se imigração não qualificada, agora temos de pensar numa emigração qualificada, defende Fernando Jorge.

Para este jovem a internacionalização é uma forma legítima de resposta à exiguidade do mercado cabo-verdiano. “Os jovens cabo-verdianos têm de pensar também em explorar outros mercados como os PALOPs e outros países emergentes, com mercados maiores e maior empregabilidade”.

Marcar a diferença pela qualidade

Mas se a internacionalização pode ser uma resposta os jovens universitários apontam também estratégias viáveis para aumentar a empregabilidade dentro do país.

A começar por um melhor conhecimento do mercado e uma análise mais consciente no momento da escolhe da área de formação.

Jéssica Correia está entre os quase 500 estudantes finalistas da UniCV em 2018. O sonho de uma licenciatura poderia ter chegada mais cedo, mas as dificuldades financeiras obrigaram-na a desistir de uma primeira licenciatura em Ciências Empresariais.

A pausa forçada deu-lhe tempo para melhor estudar o mercado, montar uma estratégia e tomar novas decisões. Mudou de área de estudo e hoje detém uma licenciatura em Ensino Básico, vertente Estudos Portugueses e Cabo-verdianos.

“Constatei que muitos conhecidos que se licenciaram na mesma área que eu pretendia não encontravam trabalho. Um deles esperou cinco anos e acabou por ingressar na Polícia. Como se costuma dizer que a área de educação tem sempre saída, pensei fazer esta licenciatura e depois fazer complementos em outras áreas que também me interessam”, explica.

Confiante na decisão tomada, Jéssica está otimista. Prestes a concluir a monografia, espera dentro de alguns meses poder concorrer a uma vaga e ingressar no mercado de trabalho.

Para Samila Macedo, que está na última etapa para conclusão da sua licenciatura em Ciências Farmacêuticas, o segredo é manter-se alerta. “É algo que temos sempre em mente. O que vamos fazer, quais são as nossas opções quando sairmos daqui”.

Samila reconhece que neste momento o mercado não é aliciante porque “está cheio, não é inovador e há pessoas que levam anos à espera de uma vaga”. No entanto as limitações do mercado não lhe metem medo, pois considera que há sempre lugar para um profissional de excelência.

Defende que se o número de licenciados cresce em quantidade, há que investir agora na qualidade. E essa busca pelo diferencial deve começar, na opinião deste jovem, ainda dentro dos limites da universidade. Para isso os universitários devem pensar já como profissionais e não apenas como meros estudantes.

“Acho que devíamos focar-nos em ser bons profissionais em vez de preocupar-nos com o mercado em si. É mais fácil culpar o Estado, as políticas e as condições que nunca chegam. Mas nós jovens também pecamos ao deixar passar oportunidades de aperfeiçoamento, intercâmbios, bolsas de estudo etc. É preciso estar mais atentos, mais interessados. Não usar a internet só para coisas triviais, mas também para encontrar oportunidades”, alerta.

Criar condições para empreender

No entanto os jovens universitários apontam também melhorias a serem introduzidas do lado das universidades e dos poderes públicos para melhor a qualidade da formação oferecida e auxiliar os jovens na transição para o mercado.

“Falta dar ao ensino uma vertente mais prática. A teoria na sala de aula torna-se uma rotina e penso que o ensino universitário tem de ser mais do que isso. Há que ter acesso, durante a formação, às empresas, para ir pondo os ensinamentos em prática e estar melhor preparado. Temos também de ter melhor preparação para uso das TICs e acesso a softwares pagos. Muitas vezes concluímos a formação sem chegar a conhecer de perto softwares que são ferramentas importantes na prática Professional, defende Fernando Jorge.

No capítulo do empreendedorismo, Fernando Jorge defende que o essencial é melhorar as condições de acesso ao crédito, com programas concretos direcionados para os jovens.

“Durante a formação sonhamos muitos projectos viáveis e que podiam ir para a frente. Contudo o problema não é ter ideias de negócios, mas sim o acesso ao crédito, porque um jovem recém-licenciado não tem nenhuma garantia para dar ao banco, sublinha.

Uma pesquisa académica levada a cabo em 2012[1] indica que 82 por cento dos estudantes universitários da cidade da Praia (que concentra 7 das 9 universidades nacionais estão representadas) aspiram criar o próprio negócio. A questão financeira foi a variável considerada mais importante e constitui a principal entrave para os que aspiram abrir o próprio negócio.

Mas além de suporte financeiro, para Samila Macedo é preciso também apostar em mais plataformas de incubação que permitam a nova geração “arriscarem-se no mercado”.

Defensora de que os jovens desta nova geração têm “a responsabilidade fazer coisas novas”, Samila apela a uma aposta mais efetiva na promoção do empreendedorismo, que poderá ser uma arma efetiva contra o desemprego.

“Porque se a um jovem é concedida essa oportunidade ele ao criar um negócio esta a disponibilizar novas vagas para que outros jovens façam parte do seu projecto. É uma forma de impulsionar a actual situação do mercado”, defende.

Com o otimismo e confiança próprios da juventude, os jovens quadros cabo-verdianos reclamam e esperam melhores condições de empregabilidade. Num mercado em transformação, delineiam estratégias para contornar os obstáculos e conseguir um lugar ao sol no país que querem ajudar a construir.

Pois como remata Samila Macedo “se cada um fizer a sua parte, teremos um Cabo Verde melhor e, porque não, um mundo melhor”.

Esta reportagem não traz os dados da Direção Geral do Ensino Superior, porque esta entidade não respondeu às solicitações do jornal.

Fonte: SantiagoMagazine