CVA não paga salários desde Abril. Pilotos exigem demissão de chefias

Os trabalhadores da Cabo Verde Airlines não recebem os seus salários há dois meses (Abril e Maio) e para o Sindicato Nacional dos Pilotos de Aviação Civil (SNPAC) isso se deve não tanto à pandemia da Covid-19, mas sim “à má gestão que vem sofrendo a CVA” com “consequências gravosas para a saúde financeira da empresa”. E apontam o dedo aos directores de Operações de Voo e Accountable Manager, aos quais pedem que sejam demitidos por “situações de desmandos” e “violação dos manuais de aeronáutica civil”.

A Cabo Verde Airlines continua com dificuldades para pagar os trabalhadores. Depois do atraso para avançar com o vencimento dos funcionários em Março, o vice-primeiro-ministro, Olavo Correia, veio a público, no dia 13 de Abril, anunciar que os salários na companhia seriam regularizados naquela semana, garantindo, inclusive, que o Governo iria assumir os encargos salariais na CVA durante os três meses seguintes, ou seja Abril, Maio e Junho – a administração prometeu o regresso da transportadora aérea aos voos comerciais a partir de 1 de Julho.

Nessa altura, a companhia ainda não tinha avançado com o lay-off (começou no dia 20 de Abril) e a garantia dada pelo Governo não tinha a ver com esse processo, em que a CVA se comprometeu a cobrir 35% dos vencimentos dos trabalhadores e o INPS os restantes 35%. Sucede que, desde então, não foram pagos nem o salário do mês de Abril nem deste mês de Maio (os vencimentos são feitos normalmente até o dia 24 de cada vez), supostamente por dívidas da companhia junto do INPS.

Esta terça-feira, 26, em carta dirigida ao CEO da CVA, Erlandur Svavarsson, a exigir intervenção da administração na gestão operacional da transportadora, o Sindicato Nacional dos Pilotos de Aviação Civil começa desde logo por abordar a questão salarial, que, a seu ver não tem a ver com a pandemia da Covid-19, embora reconheça os efeitos negativos da doença. “Ciente do momento difícil por que vive o mundo, a economia e sobretudo a indústria da Aviação Civil, da qual a CVA faz parte, sofrendo direta e indiretamente as consequências inerentes, causadas pela pandemia do Covid 19, o SNPAC, enquanto representante legal da classe de pilotos, não pode ficar indiferente. Neste sentido, com responsabilidade e espírito de parceria, manifesta a sua total solidariedade e disponibilidade em dar a sua contribuição lá onde se mostrar necessário e conveniente. Igualmente, não pode ficar indiferente à questão salarial, com sucessivos atrasos nos pagamentos, ora agravada pela situação da pandemia. Contudo, muito honestamente, a classe dos Pilotos deixa bem claro, que esses atrasos não somente se devem à situação já descrita, tendo a companhia vindo a se desculpar de maneira proveitosa”, lê-se no documento assinado por mais de 80% dos pilotos e a que Santiago Magazine teve acesso.

Nessa missiva, a organização sindical da classe faz saber que a situação salarial na CVA se deve essencialmente à má gestão. “A situação salarial deve-se essencialmente à má gestão que vem sofrendo a CVA ao longo dos anos, com consequências claras e gravosas para a saúde financeira da Empresa e consequentemente, para os funcionários em geral e os pilotos em particular, tendo em conta as responsabilidades pessoais e familiares, além de profissionais”.

Assim, os pilotos aproveitam para “manifestar o seu repúdio e denunciar esta situação, com o intuito de chamar à atenção de quem de direito, ao mais alto nível, para por cobro, o mais rapidamente possível às situações de desmandos perpetuados dentro da Direção de Operação de Voo, pelo Sr. VP & Accountable Manager, com forte conivência do Director de Operações de Voo, pela violação de maneira gritante dos manuais da Aeronáutica Civil, assim como dos Manuais e Regulamentos da Empresa em proveito de um grupo criado dentro desta Direção, formando uma autêntica ‘alcateia’, em que só se beneficiam quem faz parte do mesmo ou por eles indicados, em detrimento dos demais”.

“Estes desmandos quebram de maneira grosseira os Códigos de Ética, Conduta e Respeito não só pela classe dos pilotos, mas também dos demais trabalhadores e da própria estrutura da CVA, pondo em causa o bom nome da instituição e da classe em si, de modo que, não nos resta outra opção”, aponta o SNPC que exige a demissão dos directores de Operações de Voo, o comandante Nilton Lobo, e de Accountable Manager, Antolivio Martins.

“É preciso, de maneira clara e objetiva demarcar de tais atitudes, das quais não podemos mais tolerar, pelo que requeremos e encorajamos fortemente o afastamento, imediato, desses senhores das funções que ora exercem, o quanto antes. Como se pode crer, só com uma liderança honesta e transparente poderá a CVA conectar aos quatro continentes, de forma diferenciada, confiável e eficiente, como almejamos”, remata.

Fonte: SantiagoMagazine