CV Airlines. A lenga-lenga da Covid-19 como desculpa para o fracasso

A lengalenga já vai longa e já cansa. Debitar à COVID 19 o fracasso da CVA é moralmente inaceitável e não resiste aos factos. Não passa de uma “verdade alternativa” no jogo de manter as tropas em parada motivadas e de reanimar, recuperar e desculpar-se perante os desiludidos. Mas que não nos engrandece e muito menos alguma coisa resolve.

1. Na verdade, as rotas abertas mostraram-se logo “às moscas” ou quase, e alguma taxa de ocupação que pudesse ancorar alguma esperança foi impulsionada por tarifas aviltadas e muito aquém das praticadas no mercado – e dos custos operacionais -, prenunciando a contabilização de prejuízos cada vez mais pronunciados com o decorrer da operação. Como, aliás, os factos vieram a confirmar, de forma dura e eloquente, com o acumular de dívidas a fornecedores e o recurso a terceiros para o pagamento, imagine-se só!, de salários. Neste quadro operacional de concorrência e com a companhia a pagar leasing a 3 vezes o preço de mercado, não havia como operar no azul, e isso foi constatado muito antes Fevereiro/Março deste ano.

2. Com efeito, o GOV insiste numa narrativa que só os espíritos mais incautos podem sequer considerar. Na verdade, o que terá acontecido? O islandeses vieram tomar o pulso ao negócio, leia-se, vieram ver se podiam ganhar dinheiro. Depois de estudos, análises, projecções e ponderações mil, foram-se embora depois de 1 ano. Ao que se disse na época, sorrateiramente e descrentes. Estávamos no período de contrato de gestão. Ora, a pergunta que não quer calar é a seguinte: se o negócio fosse apetitoso, ir-se-iam embora?

3. Seja como for, o governo, com o peso do compromisso assumido na campanha eleitoral às costas, terá ido atrás deles (islandeses) para um negócio de “privatização” que não lembra ao diabo, mas lhe permitia ter algum conforto político. E os islandeses, cientes que o hub não era um bom negócio comercial e informados da fragilidade política do GOV, propuseram um negócio de aluguer de aviões que o GOV tratou de vender aos seus constituintes como privatização. E é verdade que muitos o compraram como tal!

4. Ora, a privatização de uma empresa pública rege-se por um enquadramento legal que lhe empresta um perfil de inatacável transparência. Do ponto de vista jurídico-legal, não pode haver privatização com “cláusulas confidenciais”. É contra naturam! Por outro lado, e do ponto de vista económico-financeiro, uma privatização deve representar, entre outras coisas, a eliminação do risco fiscal, a transferência de know-how e a contribuição da entidade privatizada para o crescimento do país, todos critérios não preenchidos pela chamada CVA. Portanto, tanto do ponto de jurídico quanto do ponto de vista económico, só por ilusão intelectual é que se pode falar de privatização da TACV.

5. Foi frustrante assistir a forma como o GOV se foi ajoelhando perante os islandeses. Mas não são estes os culpados, ainda que eticamente não escapem à reprovação. As responsabilidades devem ser todas elas assacadas ao GOV, ainda que nos causem “espécie” a desconsideração que o actual PCA vem dedicando ao Executivo cabo-verdiano através dos seus escritos. Quem foi eleito foi o PM e quem prometeu que ia resolver o problema da TACV foi o PM. É então ele que deverá prestar contas pelo amadorismo, imaturidade, incompetência e truculência política que moldaram todo o processo. Pior, na verdade, não poderia ter sido feito! Infelizmente.

A pandemia tem outras culpas no cartório. Mas faça-lhe justiça neste caso!

Fonte: Santiagomagazine