Cise “testemunha” dor dos artistas mindelenses devido a Covid: “Queremos trabalhar!”

A praça Dom Luís foi palco da manifestação de agentes culturais de São Vicente que, trajados de preto, juntaram as vozes e gritaram que a cultura cabo-verdiana está de luto. Com máscara e mantendo o distanciamento, expuseram as fragilidades pessoais e profissionais que vivem por causa do contexto Covid-19 instalado desde Março passado e pediram que as autoridades olhem para o setor.

Para Samira Pereira, a assessoria do grupo, esta manifestação conseguiu juntar representantes de diferentes áreas, como artistas plásticos, músicos, profissionais das artes visuais e do artesanato, produtores de eventos e espaços culturais privados, colecionadores, carnavalescos entre outros que deram a cara à causa. Neste protesto em que cada um seria porta-voz das suas ideias, da causa e objetivos em comum, Samira não pôde especificar o número de participantes esperado por não haver uma regularização do setor e não estarem inscritos.

Samira assegura, no entanto, que os artistas querem exercer o direito ao trabalho, num contexto difícil em que cada artista vive, cuja pandemia pôs a nu as fragilidades do setor cultural.

João “Boss” Brito, artista plástico e carnavalesco, confessou sentir-se abandonado num momento em que vive uma das fases mais complicadas da sua carreira. “Entras no meu atelier e é uma tristeza, porque vendi mesas, cadeiras, ferramentas de trabalho como equipamentos eletrónicos para pagar a renda e estive a tentar vender a minha câmara de filmar porque a situação está complicada”, garante.

Os apoios aos artistas através dos espectáculos em directo no Facebook dado pelo Ministério da Cultura e Indústrias Criativas não chegaram aos que deveriam chegar, uma vez que “quem participou é quem normalmente tem um salário no final do mês”, na ótica de Boss.

“Durante a pandemia estive afastado de qualquer ação cultural do Governo e como artista plástico não vi nenhuma atividade para a nossa classe. Há uma confusão na distinção entre artesãos e artistas plásticos e não há atividades organizadas para nós dentro do país e quem vai para fora normalmente são as mesmas pessoas”, lamenta Boss. Este artista acredita que a cultura está em falta pela parte dos governantes, em que quem vive de arte não consegue assumir compromissos familiares e profissionais e nem pagar contas. Ele que diz ter participado de um projeto online de arquitetura e de exposição com colegas que vivem somente da arte e pensa ser este um caminho para driblar a situação.

Já Toi Pinto, ou Toi Cabicinha, cantor que costumava actuar para a comunidade residentes nos Estados Unidos e que agora reside em São Vicente, teve que baixar o cachê. Admite que, apesar da pandemia, continua sempre a atuar. Esclarece que apenas nos grandes shows exige salário. Isto porque, além de artista, recebe uma reforma nos Estados Unidos. Mesmo assim juntou-se à causa dos agentes culturais.

Outros artistas não possuem outra fonte de renda. É o caso de Ary Maocha, ou DJ Ary Monk, que assegurou que não trabalhava desde Março e só pôde celebrar o Natal com a família porque “tirou uns dias de trabalho” em Dezembro. Em 17 anos de carreira a animar as noites mindelense, este DJ que trabalha em locais de diversão noturna admite que é a primeira vez que passa por uma fase assim tão complicada e sem dias de voltar a estar empregado. A sua deficiência física é uma fragilidade que carrega e a limita a procurar alternativas de trabalho. Tem vivido de apoio de amigos na diáspora e da patroa no Recanto da Dinha. A sua motivação para estar na manifestação vem dos filhos que precisa sustentar e por isso exige uma alternativa para a cultura.

Em coro, os artistas gritaram que querem trabalhar, que a cultura não pode ser cancelada, referindo-se ao quase um ano de interdição. “A cultura é essencial, a cultura tem saudades, a cultura é o rosto de Cabo Verde, a cultura está de luto.”

Refira-se que o protesto foi a nível nacional.

Fonte: Mindelinsite