Cientista cabo-verdiano reconstitui início da descodificação da informação genética e responde a pergunta com quarenta anos

Jailson Brito Querido publica na Science descoberta fundamental para o desenvolvimento de novos tratamentos contra o cancro.

A informação genética que herdamos dos nossos pais está codificada nos nossos genes. Quantos braços vamos ter? Qual será a cor da nossa pele ou do nosso cabelo? Vamos herdar alguma doença? Estas e todas as outras coisas que nos definem à nascença dependem da descodificação, pelos ribossomas, da nossa informação genética.

Os ribossomas são as ‘fábricas de proteínas’ dentro das células. Para que consigam identificar qual é o gene que precisa de ser descodificado, em cada momento, as informações provenientes dos genes têm de ser activadas por um grupo de proteínas que formam o complexo eIF4F.

Este complexo é fundamental à vida tal como a conhecemos. Ao longo de quatro décadas, os cientistas procuram compreender onde e como é que o eIF4F se liga ao ribossoma 40S.

Agora, pela primeira vez, é possível reconstituir o momento exacto em que se dá o início da tradução da informação genética em humanos.

A descoberta foi possível através do recurso às técnicas de engenharia genética e bioquímica, num esforço liderado pelo cabo-verdiano Jailson Brito Querido, que integra a equipa do Prémio Nobel da Química, Venki Ramakrishnan, no Medical Research Council Laboratory of Molecular Biology e na Clare Hall College, da Universidade de Cambridge, Reino Unido.

“Neste trabalho, resultado da colaboração com o grupo do professor Christopher S. Fraser, da Universidade de Califórnia, conseguimos identificar onde e como é que o complexo se liga ao ribossoma. Isto é importante porque, por exemplo, temos vários compostos, que estão neste momento a ser testados, para o tratamento do cancro, que têm como alvo o complexo 4F. Uma das limitações desse potencial alvo terapêutico era que, até agora, não se sabia onde e como é que esse complexo se liga ao ribossoma”, explica o investigador da Universidade de Cambridge.

“A maioria dos antibióticos que tomamos hoje, para combater as infecções bacterianas, têm como alvo o ribossoma. Ou seja, o ribossoma é fundamental. Se conseguirmos bloquear o ribossoma de uma bactéria, conseguimos tratar uma infecção”, acrescenta.
A pesquisa, que chega esta sexta-feira (04) às páginas da revista Science (já disponível online), recorreu à revolucionária criomicroscopia electrónica, uma forma de microscopia electrónica de transmissão, na qual a amostra é estudada a temperaturas criogénicas (muito baixas).

Concluído o processo de publicação, Jailson Brito Querido pretende continuar a explorar o processo de descodificação em humanos e alargar o foco a outros organismos.

“A natureza codificou a informação de uma forma tão fascinante, tão fantástica, que ao longo destas décadas a grande questão era como é que nós começávamos a descodificar toda essa informação”, remata.

Masaaki Sokabe, Sebastian Kraatz, Yuliya Gordiyenko, J. Mark Skehel, Christopher S. Fraser e V. Ramakrishnan são os co-autores do artigo “Structure of a human 48S translational”, no original, em inglês.

Fonte: Expresso das Ilhas